A ‘PAQUERA’ QUE O TEMPO APAGOU

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Por: Gangsta Pick

 

Hoje trago as palavras de um povo rico em diversidade cultural. A história narrada pela anciã chamada kakinda, membro da tribo kyaxita, outrora residentes no kunga dya samba, município de kitende-kitexi, no Uíge.

 

Julguei fascinante recorrer à tradição oral. Um poderoso meio de transmissão e preservação histórica do qual os africanos sempre se serviram para garantir os artefactos históricos da sua tradição, cultura e religião. Eis a história na íntegra:
Antigamente quando um homem quisesse namorar uma rapariga, ele não podia falar directamente com a menina. Este homem tinha que arranjar alguém para levar os seus recados. E a moça tinha que, também arranjar alguém, uma amiga de sua inteira confiança para levar as suas palavras ao moço. A comunicação entre ambos era feita com ajuda de intermediários, durante muito tempo. E se no final das contas, a moça também se tivesse desenvolvido um pequeno interesse pelo jovem, então ela teria que procurar a sua tia, responsável pelas questões de namoro e alambamento, e expor a situação. O jovem deveria enviar um artigo de uso pessoal, como um lenço de bolso ou um colar de contas, como prova de seu interesse e amor por ela. Este artigo também deverá ser apresentado à tia. E esta, por sua vez, deverá procurar o Pai da moça e explicar a preocupação da menina.

 

 
A tia fornece os dados do moço como nome, a tribo, o nome dos Pais e a sua condição económico-financeira. Este último elemento era determinante. Pois acabaria por definir (até certo ponto) as exigências no acto do alambamento. A jovem não pode aceitar o rapaz antes de o assunto chegar a seu Pai. Na verdade, a reposta (positiva ou negativa) dependerá do Pai e da Tia. Ambos analisam aspectos relevantes, tais como: o comportamento dos ancestrais do jovem e o comportamento dos Pais. Se, após isso, o balanço for positivo, a menina recebe ordens expressas para aceitar, de modos que, num futuro próximo possa casar o jovem em causa. Mas se o Pai e a Tia concluírem que se trata de um jovem cuja família não é de bom fundo. A jovem recebe ordens para devolver o artigo de uso pessoal ao rapaz e a recomendação para manter-se distante dele.

 

 
Todo esse processo é feito com ajuda de intermediários. Isto é: se a resposta for positiva, a Tia explica à menina, e esta comissiona a amiga, a levar o SIM ao moço. Mas se a resposta for negativa, ela (a amiga de sua inteira confiança) deverá levar o NÃO e o artigo de uso pessoal de volta. Nos casos em que houvessem respostas positivas, o jovem era notificado a apresentar-se acompanhado de seus Pais, a família da moça levando o que lhe fosse exigido, em muitos casos era uma garrafa de maruvo. E depois nas suas rotinas normais, enquanto namorados, eles continuariam a depender das pessoas que confiavam, para levar e trazer recados. E caso eles quisessem estar juntos, caso o homem pedisse a moça para lhe fazer uma visita, eles teriam de estar expostos, isto é, em um local onde podem ser vistos. No caso de o futuro marido desejar menos exposição. Apelando a um pouquinho de privacidade com sua noiva, ainda assim teria que contentar-se com o facto de que eles nunca estariam completamente sós. Pois uma irmã crescida da jovem noiva teria de ficar ali o tempo todo, vigilante, até ao final da conversa. O mais importante era que a moça fosse à casa do marido pura.

 
CASAMENTO

Por este motivo, os mais velhos da aldeia aplicavam estas restrições. Este processo podia demorar um ou dois anos, variava. Mas enquanto o alambamento não tivesse sido feito, eles estariam proibidos de estar sozinhos. Para que, não corressem o risco de ter relações sexuais antes do alambamento.

 
Depois de finalizado os detalhes dos requisitos necessários, para pagar como dote. Marca-se a data do alambamento. E em vésperas da cerimónia a jovem deverá ser enviada à casa dos sogros, onde ficará por uma semana para ser avaliada. Avaliam-se questões de higiene, trabalhos domésticos, habilidade nos trabalhos agrícolas, transporte de lenhas, (onde o detalhe de máximo realce é o facto de que, ela nunca deve atirar o embrulhado de lenhas da cabeça ao chão, mas demonstrar um gesto que a dignifica, como sendo alguém que faz aquele tipo de trabalho com relativa constância. Ela deve ajoelhar-se e depois inclinar-se para frente e então pousar o embrulhado de lenha, com a ponta frontal e cuidadosamente rolar ao chão).

 
Eram estas e outras questões que entravam em linhas de consideração, para avaliar as qualidades da futura mulher de família. E durante esse período de estadia na casa dos sogros, a jovem ficará a dormir com as cunhadas. O futuro marido nem direito terá de dirigir-lhe a palavra. A jovem ficará sob o controle de sua sogra e de suas cunhadas. Passado uma semana regressa à casa de seus Pais e fica ali até o dia do alambamento. Houve casos em que mulheres não eram permitidas a desposar um homem que não fosse agricultor, que não tivesse Tonga de café, que não fosse abastado. Pouquíssimos casos, mas tive a felicidade de testemunhar alguns.

 
O alambamento era mera simbologia. Podiam ser dois garrafões de maruvo, algumas unidades de cola e de gengibre, um ou dois cobertores, e um valor monetário, algo em torno de dois escudos. E se a família do jovem fosse abastada, a família da moça podia pedir uma cabeça de cabra. E se depois de algum tempo o marido morresse, a senhora tinha que viuvar por um ano, isto em casa de seus Pais. E durante o período em que estivesse a viuvar, a jovem/senhora tinha que usar roupas pretas. Tinha também que cobrir o rosto com véu e burca. Quando estivesse a ir ao rio ou à lavra, não podia saudar ninguém, (principalmente homens). Se alguém a cumprimentasse ela não podia responder. Reza a tradição que se a pessoa em causa respondesse uma saudação, enquanto estivesse a viuvar corria o risco de contrair doenças mortais.

 

 
Por este motivo, a viuva tinha que cumprir em respeitar os rituais e afastar de si todo tipo de mal. E depois de cumprido este período, ela era entregue a um irmão do seu falecido esposo (mais velho ou menor) para que, a geração começada pelo falecido tivesse continuidade. Isto tinha que ser feito apenas com pessoas ligadas pelo mesmo laço de consanguinidade. E no dia em que o novo dono fosse buscá-la já não precisaria dar nada, além de um garrafão de maruvo. No nosso tempo era assim.

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