ACADÉMICOS MARCHAM CONTRA O LIVRO “ENSABOADO E ENXAGUADO”

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Por: Bruno Arrobas

Um grupo de jovens estudantes da Língua Portuguesa promovem uma manifestação com objectivo de exigir a reedição do livro “ENSABOADO & ENXAGUADO” de José Carlos de Almeida.

 

Os jovens, cuja associação denomina-se União Tolerância Linguística (UTL), já têm o aval do Governo Provincial de Luanda, prevêem marchar no próximo sábado ( 16) e pretendem unir estudantes, estudiosos, professores e amantes da Língua portuguesa. Alegam ser uma marcha “contra o mal causado pelo preconceito linguístico”. O lema da manifestação é “NÃO AO PRECONCEITO LINGUÍSTICO, EXIGIMOS A REEDIÇÃO DO LIVRO”.

 

O membro-fundador do grupo, Alberto Sebastião ‘Littera-Lu’, em entrevista à Yetwene, espera alcançar o objectivo preconizado, que é o de “denunciar o tratamento preconceituoso ao qual é submetido o falante que não se enquadra à norma padrão“. Para este, “aceitar a existência e a importância das variações linguísticas, é o primeiro passo para combater o preconceito linguístico“, acrescentou ainda que o primeiro passo “para desfazer o preconceito linguístico é respeitar a existência das variações linguísticas e dos diferentes contextos culturais“.

 

Questionado do porquê da marcha ser só agora, já que o livro foi lançado há mais de 4 anos, o interlocutor respondeu que “somente há dois anos, exactamente em 2014, lemos e relemos com atenção o fascículo ‘Ensaboado & Enxaguado”. Chegaram a conclusão de terem verificado no livro “mais pérolas do que directrizes correctas”. “Os alunos contrapõem-se às nossas observações por terem visto o contrário (que era um absurdo) no livro ‘Ensaboado & Enxaguado”, rematou.

 

Litera Lu publicou em em 2014, no Jornal Cultura, o seu parecer sobre o ‘Ensaboado & Enxaguado – Língua Portuguesa & Etiqueta’ e mostra que “no texto, baseado em obras de credibilidade, em gramáticos e dicionaristas respeitáveis”, o livro “tem ‘vítimas’ (em vez de leitores)”.

 

Em face das críticas, o autor do “Ensaboado & Enxaguado” não fez o que o crítico esperava: publicar no jornal em causa uma refutação. O crítico desafia, inclusive, o autor a fazer notas relativas às análises e enviar. “publico-as na secção Gramática e Ortografia do Recanto das Letras, Brasil”. A reacção de José Carlos de almeida, segundo o jovem crítico, foi o envio de uma mensagem, por e-mail, “dizendo que eu responderia a um processo-crime que estava a preparar“.

 

PRECONCEITO NA LÍNGUA

A organização diz haver inúmeras formas de preconceitos, mas o mais praticados e menos discutido é o “preconceito linguístico”. Recorrem-se à obra de Marcos Bagno, ‘Preconceito Linguístico – o que é, como se faz’, explica: “esse tipo de preconceito nasce da ideia de que há uma única língua portuguesa correcta, que é a ensinada nas escolas, está presente nos livros e dicionários e baseia-se na gramática normativa.

 

Segundo Litera Lu, este preconceito linguístico.”está consumado de forma absurda com o lançamento do livro ‘ENSABOADO & ENXAGUADO’ e o livro ‘AMOR AO PRÓXIMO’, de José Carlos de Almeida. “Vê-se nos seus livros, expressões como “é lixo”, “não existe”, “não é português”, “quem diz assim está a ser procurado”, etc”.

 

O jovem defende que “língua retratada no livro de José Carlos de Almeida, tem, decerto, uma denominação (português) que denuncia exterioridade, seu não-pertencimento a este lugar chamado Angola“.

 

EXEMPLOS DE PRECONCEITO

 

Para U.T.L, os exemplos que se seguem, são algumas das pérolas que servem de controvérsias entre professores e estudantes:

1. O verbo LAGRIMAR existe em Português? (Não sei qual será a sua resposta, mas esse verbo para o ‘Ensaboado’ não existe, a ver-se pelo argumento que fornece na página 74.)

 

2. Segundo a Gramática, separa-se por vírgula o sujeito do verbo? (Não sei qual será a sua resposta, mas essa separação é notória nas páginas 92, 113, 116, etc., do livro ‘Ensaboado’.)

 

3. A palavra FRAUDA existe? Como se conjuga o verbo fraudar na 3.ª pessoa do presente do indicativo? (Não sei qual será a sua resposta, mas para o ‘Ensaboado’ frauda não existe, a ver-se pela afirmação que faz na página 113.
Obs.: “Frauda” só se usa como forma verbal, ou seja, como substantivo, usa-se fraude.)

 

4. Creio que todo o mundo sabe qual a designação da selecção masculina de futebol. Você sabe? (Não sei qual será a sua resposta, mas para o ‘Ensaboado’ dizer «os Palancas» dá a ideia de um machismo inútil. Quanto a isso, se eu pertencesse à equipa talvez me zangasse com quem que dissesse que eu era “uma” Palanca.)

 

5. A VERNACULIDADE ou PUREZA da linguagem consiste em empregar exclusivamente construções e vocábulos próprios da nossa língua. Opõem-se à VERNACULIDADE os ESTRANGEIRISMOS, ARCAÍSMOS, PROVINCIANISMOS, PLEBEÍSMOS. O pseudónimo de José Carlos, autor do ‘Ensaboado’, é Makiesse que, em kikongo, significa alegre. Esse pseudónimo está em desacordo com a VERNACULIDADE/PUREZA da linguagem ou não? (Não sei qual será a sua resposta, mas eu começaria logo por desaprovar o pseudónimo, no fundo e sobretudo na forma, língua estrangeira, num trabalho sobre a Língua Portuguesa.)

 

6. O vocábulo PINHA existe ou não? (Não sei qual será a sua resposta, mas para o Ensaboado não existe, a ver-se pelo que afirma na página 65.)

 

7. É certo usar a expressão «palavras difíceis»? (Não sei qual será a sua resposta, mas para o ‘Ensaboado’ dizer «anote as PALAVRAS DIFÍCEIS para depois procurar os seus respectivos significados no dicionário» é errado. Ele discorda da expressão, pelo que, em sua substituição, propõe «palavras invulgares». Mas lembro que o uso impõe, em contexto informal, sobretudo no contacto com crianças, a expressão «palavras difíceis», Sr. José Carlos.

 

8. A FRASE começa sempre com maiúscula inicial ou minúscula inicial? (Não sei qual será a sua resposta, mas o autor do ‘Ensaboado’ começa a frase com inicial minúscula, na página 33.

 

9. OUTRA ALTERNATIVA é redundância? (Não sei qual será a sua resposta, mas isso aí está na página 82 do ‘Ensaboado’. No vocábulo alternativa já existe um radical (alter) que, em Latim, significa outro(a)).

 

10. Não é certo dizer, em referência a uma carta, bilhete ou mensagens, «o texto fala de um homem…» ou «a carta fala das dificuldades…»? (Não sei qual será a sua resposta, mas para o ‘Ensaboado’ «a carta e o texto não falam». É impossível, segundo ele, ouvirmos a voz através do texto ou da carta.
Cuidado, autor: como acontece em “os dentes do pente” há uma metáfora legítima estilisticamente quando se escreve: “o texto fala de um homem”, porque se for lido em alta voz, fala mesmo.)

 

11. Conhece a diferença entre «dançar bem» e «dançar muito»? (Não sei qual será a sua resposta, mas se na sua biblioteca só houver o ‘Ensaboado’, não vai poder saber, porque ele não faz distinção entre essas duas formas.)

 

12. O certo é «existem alternativas» ou «existem outras alternativas»? (Não sei qual será a sua resposta, mas uma dessas formas aparece na página 82, do ‘Ensaboado’.)

 

Temos, então, um bom livro? (Não sei qual será a sua resposta…)

 

A UNIÃO

(Da esquerda à direita): Bráulio António, José Osvaldo Andrade, Elizandro Felizardo, Alberto Sebastião "Litterra-Lu", António Ngola, Benevolência Magno e Caetano de Sousa Kambambe

(Da esquerda à direita): Bráulio António, José Osvaldo Andrade, Elizandro Felizardo, Alberto Sebastião “Litterra-Lu”, António Ngola, Benevolência Magno e Caetano de Sousa Kambambe

 

A União Tolerância Linguística, fundada por Tomás Calomba, Caetano Kambambe, António Ngola, Littera-Lu, Elizandro Felizardo, Benevolência Magno, Bráulio António e José Osvaldo Andrade.

 

Compõe estudantes, estudiosos e professores de português, que se procuram em compreender, explicar e analisar certos fenómenos linguísticos. A União encara o preconceito linguístico como um meio de exclusão social, enfim, compara a noção de desvio em linguística com a noção de erro gramatical, constrói uma base linguística sobre os “erros” comuns no português angolano, identifica postulados gramaticais infundados, define o que é errado e o que é certo na comunicação.

 

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